Como as tecnologias digitais irão transformar o setor de energia elétrica

O setor de energia elétrica brasileiro não sofre grandes transformações tecnológicas desde seu surgimento no final do século XIX. No entanto, diversas inovações estão sendo disseminadas pelo mundo que visam aprimorar os mecanismos de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica e solucionar desafios relacionados ao envelhecimento da infraestrutura das redes, bem como metas de redução das emissões de carbono e aumento do nível de exigência dos consumidores.

Grande parte dessas inovações estão relacionadas às Redes Elétricas Inteligentes (Smart Grid) – REIs, que são sistemas de distribuição e de transmissão de energia elétrica dotados de recursos de tecnologia da informação e comunicação (TIC) e de elevado grau de automação, de forma a ampliar sua eficiência energética e operacional. Com o alto nível de tecnologia agregado, as REIs conseguem responder a várias demandas da sociedade moderna, tanto no que se refere às necessidades energéticas, quanto em relação ao desenvolvimento sustentável.

No entanto, essa transição é um processo demorado, custoso e envolve a adequação de diversas legislações, normas e regulamentações que estão em vigor há muitos anos, além do desafio da estruturação de uma cadeia industrial de fornecimento capaz de suprir a demanda por esses novos produtos e serviços. A evolução do setor de energia elétrica tem como base as tecnologias da transformação digital no contexto da indústria 4.0, e o IEBT, em parceria com o SEBRAE-MG, estudou o caminho dessa transformação aplicando a metodologia do Roadmapping Estratégico para o setor elétrico.

Uma das grandes revoluções projetadas para o setor é em relação ao modelo de negócios das empresas distribuidoras, como a CEMIG, Light e CPFL. Hoje focado na gestão de ativos, a tendência é a mudança do foco para prestação de serviços de alto valor agregado, com destaque para as aplicações e serviços com foco no consumidor. Essa mudança será possível com a entrada de novos agentes na rede elétrica, como: medidores inteligentes; sistemas de micro e mini geração distribuída; carros híbridos/elétricos; sistemas de coleta de dados, entre diversos outros. Esses dispositivos e sistemas englobam as tecnologias de Big Data, Data Analytics e Inteligência Artificial e irão agregar valor a um serviço que é muito tradicional e defasado tecnologicamente: o fornecimento de energia.

A consolidação das redes elétricas inteligentes impactará não somente as empresas e atividades relacionadas ao setor de energia elétrica, como também no modo como o consumidor irá interagir com a rede. Máquinas, equipamentos, residências, edifícios, condomínios e até mesmo cidades inteiras serão capazes de serem geridos e programados. A utilização em massa das tecnologias inteligentes, comunicação e automação serão os pilares nessa transformação digital, onde todos os objetos podem ser unicamente identificados, reconhecidos, localizados e endereçados: um novo mercado que se abre para as empresas.

A nova dinâmica abrirá um leque de oportunidades para desenvolvimento de inovações que poderão ser agregadas ao setor elétrico e permitirá a entrada de novos players nesse mercado. A maior flexibilidade conferida ao setor por meio da consolidação das REIs fará com que novos serviços possam ser oferecidos, com maior eficiência e qualidade, e o consumidor será livre para buscar alternativas que lhe proporcionem maiores benefícios. Como exemplos práticos, pode-se citar:

  • Implementação de tarifas diferenciadas para o consumo em diferentes horários ou de acordo com o perfil do consumidor;
  • Possibilidade de disponibilizar a compra de energia de forma pré-paga, assim como adquiri-la de outros fornecedores;
  • Leitura digital e remota dos quadros de energia, permitindo o monitoramento do consumo tanto pela distribuidora como pelo consumidor;
  • Operação de liga e desliga do fornecimento de energia de forma remota;
  • Sistemas de inteligência artificial que permitem o mapeamento de padrões de consumo, sendo possível identificar fraudes no sistema elétrico, por exemplo;
  • Gerenciamento pelo usuário do consumo de cada um dos aparelhos e dispositivos conectados à rede de energia, assim como o acionamento remoto; entre outros.

As maiores distribuidoras do Brasil já estão se mobilizando, com investimentos em projetos que visam o desenvolvimento e implementação piloto dessas tecnologias. A construção do Roadmap para o setor elétrico aponta que até 2030 já teremos redes e cidades inteligentes ativas no Brasil, caso o ambiente regulatório seja favorável. No entanto, essa transformação vai muito além da tecnologia em si, vários procedimentos consolidados serão impactados, a troca e a quantidade de informações será muito maior, a interação com o consumidor será constante, assim como a disponibilização de novos serviços e produtos.


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